Resenha 1

 

PASSARELLI, Brasilina. Do Mundaneum à WEB Semântica: discussão sobre a revolução nos conceitos de autor e autoridade das fontes de informação. DataGramaZero, n. 5, v. 9, out. 2008. Disponível em: <http://www.dgz.org.br/out08/Art_04.htm>. Acesso em: 01 mar. 2010.

No artigo em questão, a professora e pesquisadora das temáticas relacionadas ao campo da Educomunicação, Brasilina Passarelli, revela a origem de certos termos e conceitos referentes às novas tecnologias da informação e da comunicação, de modo que aponta que os processos revolucionários que culminaram com a ampla difusão dessas tecnologias na sociedade contemporânea contaram com a contribuição decisiva de autores que com suas visões de futuro possibilitaram o novo mundo que hoje entendido como sociedade da informação.

Inicialmente destaca o papel pioneiro de Paul Otlet que o coloca como “pai” da Documentação e da Internet como demonstram os projetos que ele desenvolveu, como o Mundaneum, instituição fundada no ideal de uma enciclopédia universal. A autora indica que esforços do criador do Mundaneum para ampliar a divulgação e o acesso aos seus acervos o levaria a idealizar máquinas e bases de dados que permitiriam ao usuário o acesso remoto aos documentos indexados nesta instituição. Tal como citado no texto, Otlet foi o responsável ainda no início do século XX por cunhar termos como “web of knowledge, link e repository of knowledge” e suas ideias influenciaram pesquisadores “na busca de ferramentas para o controle bibliográfico e acesso á informação”.

Na sequência do artigo aponta autores que formam o que denomina como “As três gerações da Web”, sobre a primeira geração, a da chamada “Web 1.0”, cita Theodore Nelson, que cunhou o termo hipertexto e que desenvolveu o projeto de rede “Xanadu” buscando um sistema com links que permitissem relações tridimencionais, mais amplas que as relações bidimensionais possibilitadas com a rede Internet, criada por Tim Berners-Lee sob a influência das ideias de Theodore Nelson, primeiramente desenvolvida somente para cientistas compartilharem informações sobre pesquisas.

A autora aborda as relações entre o modelo de rede Internet nos Estados Unidos administrado pelo World Wide Web Consortium (WWWC), criado por Berners-Lee, que preconiza a “neutralidade da rede, onde todos têm o mesmo nível de acesso e a informação é tratada com igualdade”, e o foco no usuário que surge com o conceito de “comunicação de todos com todos instaurando uma rede de comunicação horizontal”, como é a Internet.

Sobre a segunda geração, a da Web 2.0, o texto destaca a característica de compartilhamento e interatividade com os conteúdos disponibilizados na Internet por meio de sistemas baseados em redes sociais (YouTube, MySpace, Bebo), na classificação do conteúdo pelo usuário (folksonomias), na produção coletiva e publicação automática de conteúdos (Wikipedia e Second Life).

Sobre a terceira geração, a da Web 3.0, a qual conforme a autora corresponde ao termo “Web Semântica” cunhado por Berners-Lee “para denominar uma Web com maior capacidade de busca e auto-reconhecimento dos conteúdos por meio de metadados com descrições ligados aos conteúdos originais”, mas que ainda é um conceito ainda em desenvolvimento e que não possui o suporte de tecnologias adequadas a sua realização, embora, tal como indica o texto, já existam uma série de projetos que caminham por esta direção: FOF – Friend of Friend, Piggy Bank, LinkedIn, Google maps, Amazon Mechanial Trk e o Google Image Labeter.

É a partir do contexto do ideal da produção colaborativa via uso das ferramentas das TICs e da Web que a autora introduz a discussão sobre o que chama de revolução nos conceitos de autor e autoridade das fontes de informação. À luz das análises de Howard Rheingold, Sherry Turkle, George P. Landow, Bjork e Jean-François Lyotard, a autora entende as profundas transformações na comunicação da informação sofridas pelo advento da sociedade em rede. O que refletiu no surgimento da autoria coletiva e cooperativa que emergiram das relações estabelecidas em comunidades virtuais que nasceram com a Web 2.0. Do mesmo modo, com o hipertexto se institui a narrativa não-linar caracterizada por instantaneidade, transitoriedade, interoperabilidade e interatividade, segundo a autora, “desconstruindo a narrativa linear instituída em 500 anos de comunicação por meio da palavra escrita impressa em papel”. Desse modo, traz como efeitos a “reconfiguração do autor, da escrita e da narrativa”.

O texto destaca ainda que também a comunicação científica sofre com conflitos desse contexto conectado em rede. Surgiram as publicações científicas em plataformas abertas, categorizadas de acordo com o texto em: “periódicos científicos eletrônicos com peer review; servidores de e-prints temáticos; repositórios institucionais de universidades e auto-arquivamento em páginas pessoais dos autores”, tais possibilidades, segundo a autora “no que tange à autoridade das fontes de informação na comunicação científica parece haver consenso que o conflito se instala quando da ausência do processo de peer review, uma vez que a legitimação do saber científico é construída no processo do consenso”.

Dentro dessa questão do conflito da autoridade de fontes de informação, o caso da Wikipedia é revelador desta discussão, pois, como aponta a autora trata-se de uma enciclopédia on-line cujos verbetes são desenvolvidos de forma colaborativa por inúmeros autores e possui enorme popularidade a ponto de gerar um debate sobre a credibilidade dos textos de suas entradas em relação aos das enciclopédias tradicionais. Questiona-se se há de fato “validação zero” para os verbetes da Wikepedia e além disso há indicação do problema das licenças para publicação do tipo copyleft.

O artigo é finalizado com a citação de novas visões do futuro, de “sombras e de luzes”, indica a alternativas para novas licenças de publicação, como a proposta de transcopyright de Ted Nelson, o uso massivo das tecnologias de informação e comunicação e das plataformas abertas, a convergência das mídias e o impacto nos comportamentos das populações, de modo que anuncia mudanças para ciência da informação e a reconfiguração do acervo.

 

Resenha 2

 

SILVA, Armando Malheiro da. Mediações e mediadores em Ciência da Informação. PRISMA.COM, n. 9, dez. 2009. Disponível em: <http://prisma.cetac.up.pt/Prisma.Com_n9-Mediacao_e_mediadores_em_Ciencia_da_Informacao.pdf>. Acesso em: 01 mar. 2010.

 

O professor da Universidade do Porto, Armando Malheiro, traz no artigo em questão um panorama das discussões acerca dos conceitos de mediação. Trata-se de um texto bastante complexo na sua formulação e proposta. Inicialmente, à luz de definições encontradas em dicionários e textos de autores da literatura especializada, relativos às áreas de Ciência da Comunicação e Ciência de Informação, o autor discorre sobre as diferentes formas de apropriação do conceito de mediação, apontando ao final que este é um termo raro nas obras de referência das áreas de Biblioteconomia e Arquivística, segundo sua afirmação: Em todas essas obras de referência, o conceito mediação prima pela ausência, o que permite inferir que até hoje não foi sujeito a um exercício de apropriação e ajustamento pelos especialistas em Ciência da Informação e , quando usado por estes, foi como cópia ou tradução directa de certas fontes, sendo Jesús Martín-Barbero uma delas”. Considera que não existe uma apropriação crítica do conceito mediação, e mais ainda haveria uma tendência de “aproveitarmos ou importarmos um conceito operatório surgido e desenvolvido por outra(s) disciplinas(s)” sem o necessário “ exercício de crítica e de integração instrumental no quadro teórico-metodológico que nos é próprio” (SILVA, 2010, p. 9).

Nesse sentido, o autor propõe analisar o conceito mediação no plano de uma concepção transdisciplinar de Ciência da Informação, fundada na aproximação entre as Ciência da Informação e Comunicação e das Ciências Sociais Aplicadas, a qual se contrapõe à Ciência da Informação norte-americana, mais centrada no processamento automatizado.

A Ciência da Informação que o autor defende segundo ele “precisa, ainda, de uma “metateoria” explicativa baseada em dois paradigmas essenciais: o custodial, patrimonialista, historicista e tecnicista, que surge a partir do séc. XVIII até à Era da Informação em que vivemos; e o pós-custodial, informacional e científico, que tenderá a formatar o modo de ver, de pensar e de agir de gerações de cientistas e profissionais da informação, ao longo do séc. XXI” (Ibidem, p. 10).

O autor explica que o paradigma custodial foi sendo desenvolvido historicamente a partir “de uma formação localizada e centrada no locus profissional (Arquivos, Bibliotecas e Museus) com suas tarefas e praticas que se sobrepunham a eventuais preocupações teóricas e reflexivas”, de modo que: “Guardar os documentos antigos e raros tornou-se a missão primeira e última dos profissionais, colocados nas instituições culturais, criadas e assumidas pelo Estado-Nação após a revolução francesa, o que, naturalmente, permitiu associações fáceis e imediatas, como a de cultura com património, e separações perversas, como o fosso cavado entre cultura ‘erudita’ e “popular” – legado paradigmático reproduzido por gerações. Por outro lado, a consciência do acesso aos conteúdos, que decorria da função original consignada, para Arquivos e Bibliotecas, nas leis revolucionárias de setecentos, era contraditória (os documentos deviam estar acessíveis a todos, mas nem todos os mereciam...) e esbarrou em obstáculos de diversa ordem, nomeadamente sócio-culturais (taxas elevadíssimas de analfabetismo), tecnológicos (as limitações físicas da impressão em papel e a degenerescência das fotocópias e de outros produtos reprografados), sócio-económicos (desigualdade econômica no acesso a níveis superiores de ensino) e administrativos (a imposição de limites de idade e de regras aos utilizadores, francamente desestimuladores da consulta), que a atrofiaram até ao surgimento da Era da Informação em que já estamos em pleno.” (Ibidem, p. 10)

Assim, em consequência do aparecimento das TICs e da expansão da sociedade em rede se desenvolveu o paradigma pós-custodial, com o qual o texto revela que “não se proclama a morte do documento”, nem a “desmaterialização da informação”, mas se introduz uma “dinâmica inteiramente nova na reprodução e na comunicabilidade de conteúdos/informação”, que agora é posta sem limites “ a circular”, tal como afirma o autor, no sentido oposto do “custodiar ou guardar, de fechar e esconder” (Ibidem, p, 13).

O autor defende que o paradigma pós-custodial implica em novas posturas e mudanças epistomológicas que trazem “imensos desafios e incertezas”. Segundo suas palavras, “a Ciência da Informação que brota deste novo paradigma por um projeto emergente, com fragilidades e potencialidades, sintonizado com o universo dinâmico das Ciências Sociais e centrado na compreensão do social e do cultural, com influência direta no processo formativo dos futuros profissionais da informação”. (Ibidem, p. 14)

O autor considera a mediação custodial, que se revela dentro do paradigma custodial, como uma “mediação imperfeita e perversa ou negativa”, na qual o compete ao agente influenciar o leitor, avaliar e escolher o que deve ser lido, o que deve estar acessível e o que deve estar oculto. Aponta que Otlet, Ortega y Gasset e Ranganatham contribuíram para mudar essa perpectiva até que surgiram condições para o estabelecimento da mediação pós-custodial e informacional, com qual se instaura um novo reordenamento para os serviços de informação, que se multiplicaram diante da explosão informacional, se complexificaram e passaram a exigir uma mediação “deslocalizada e dispersa (na internet/redes conexas), institucional, colectiva, grupal, pessoal e até anônima, interatictiva e colaborativa. Possíveis traços caracterizadores, entre os quais importa destacar a interação e os processos colaborativos, sociais, de participação cívica, espontânea e militante.” (Ibidem, p. 25)

O autor finaliza o artigo propondo que a complexidade do novo paradigma pós-custodial que se contrapõe à linearidade contida no paradigma custodial, seja compreendida nos seus tipos principais, os quais denomina e caracteriza como: mediação pós-custodial institucional (“Enquadra-se dentro das tradicionais instituições culturais, como são as Bibliotecas e as Arquivos, é exercida pelos mediadores especializados, como são os bibliotecários e os arquivistas, mas, ao mesmo, tempo é partilhada com informáticos e designers de informação, de quem depende a feitura do website através do qual são disponibilizados os acervos em depósito”); mediação pós-custodial distribuída ou partilhada (“Ocorre em certos tipos de serviços e media digitais, como websites e blogs, pertencentes a entidades colectivas e a indivíduos, em que há o(s) mediador(es) que localiza(m), digitaliza(m), seleciona(m) e disponibiliza(m) conteúdos, há o designer e a empresa que vendem ou fornecem de forma livre a aplicação e há aderentes ao serviço que são convidados a intervir activamente com conteúdos e comentários”);e mediação pós-custodial cumulativa (“À medida que se inovam e expandem mais as possibilidades tecnológicas (novas soluções e produtos) o papel do “prossumidor” (produtor e usuário) cresce enormemente, desenvolvendo um tipo de mediação cumulativa que pode abranger a de designer e de programador, e que produz efeitos e é condicionada através da activa participação em comunidades que agregam interagentes idênticos ou parecidos”) (Ibidem, p. 31). Mostra que as novas demandas apontam para novos papéis para os mediadores, novas formas de interação e de mediação.


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