Cena do filme "Laranja Mecânica"
Postagem realizada em: 14/04/2007 às 11:50:14 - Última atualização em: 30/11/-0001 às 00:00:00
Autor: Agamenon Picolli Leite
Um Google para a sua empresa
Sistemas de busca corporativos capazes de encontrar informações no caos de dados das companhias prometem ser a próxima grande onda de inovação tecnológica
Por Ricardo César
"Eu não busco, eu encontro", é uma das mais famosas frases atribuídas a Pablo Picasso, que a teria usado para sintetizar sua facilidade de criar obras-primas. Se atuasse como executivo de uma grande empresa, contudo, dificilmente o pintor espanhol teria dito o mesmo, ainda que fosse um homem de negócios tão genial -- e imodesto -- quanto foi como artista. Achar dados dispersos pelos diferentes departamentos, armazenados em sistemas que nem sempre conversam entre si ou escondidos nos computadores espalhados nas mesas dos funcionários, é tarefa extenuante e nem sempre frutífera. À primeira vista, pode parecer um problema menor. Não é bem assim. Estima-se que o tempo médio gasto procurando informações -- na forma de relatórios, e-mails, planilhas e assim por diante -- seja o equivalente a 10% dos custos com salários de empresas que fazem uso intensivo de conhecimento, como as de mídia e tecnologia. Segundo a consultoria IDC, uma companhia americana desses setores que emprega 1.000 profissionais perde, em média, o equivalente a 5 milhões de dólares todos os anos procurando dados que deveriam estar à mão. É por isso que, depois da febre dos softwares de gestão empresarial e dos programas para gerenciar o relacionamento com os clientes, a próxima grande onda tecnológica que se desenha é uma espécie de Google corporativo, um sistema de interface simples -- apenas uma caixinha e um botão de OK --, mas poderoso o suficiente para encontrar as informações relevantes soterradas na montanha de dados que é, no fundo, toda e qualquer empresa.
É impossível não notar a ironia: a dificuldade de encontrar informações valiosas advém justamente da disseminação da informática no ambiente de trabalho. Hoje basta um simples comando para criar qualquer arquivo. Cada e-mail, cada mensagem instantânea, cada texto inserido num website é, a rigor, um novo documento. Fotos, vídeos e apresentações multimídia passeiam pela internet e pelas redes empresariais e são copiados e armazenados nos computadores. Estima-se que 20 bilhões de gigabytes de dados digitais tenham sido criados apenas em 2006. Para ter uma idéia do que isso significa, um DVD completo armazena 4,7 gigabytes. Peneirar a informação exata não é uma tarefa simples. E, como no caso da web, quem resolver o problema pode ganhar muito dinheiro -- haja vista a fortuna do Google, que ajudou a organizar o caos das mais de 12 bilhões de páginas que existem na internet. Numa conferência com líderes empresariais no ano passado, Bill Gates, o fundador e presidente da Microsoft, afirmou que os dispositivos de busca são "a última milha da produtividade".
É claro que o próprio Google também está de olho nessa oportunidade. O mercado empresarial ainda é uma parte ínfima do faturamento da gigante de buscas, que foi da ordem de 10 bilhões de dólares em 2006, e representa uma chance de diversificar as receitas. Mas reproduzir a eficiência conquistada na web dentro das redes empresariais está longe de ser algo simples. É preciso criar novos parâmetros de pesquisa. Uma das formas que o Google usa para determinar que resultados exibir é a quantidade de links existentes na internet que levam a determinado site. Quanto mais links apontam para um endereço, mais relevante ele deve ser. Só que dentro de uma empresa isso não funciona tão bem. Um documento importante pode estar guardado em sigilo, sem que haja indicações de sua existência espalhadas pela rede empresarial. Outro problema é que as grandes companhias gostam de comprar sistemas atrelados a contrato de serviços, como atualizações e suporte técnico, para garantir que seu funcionamento seja constante. Diferentemente dos tradicionais fornecedores de software empresarial, como Oracle e IBM, o Google não tem essa cultura. É preciso montar toda uma estrutura de serviços e de parceiros comerciais, um processo trabalhoso e que exige investimentos pesados. "Tradicionalmente, atuamos quase como uma empresa de mídia. Investimos em tecnologia de qualidade para atrair audiência para nossos serviços", diz Berthier Ribeiro-Neto, diretor de engenharia do Google Brasil. "Isso tem uma lógica. Distribuir produtos para companhias tem outra. Mas queremos estar nos dois mundos."
Disponível em: http://portalexame.abril.com.br/revista/exame/edicoes/0888/tecnologia/m0123951.html