A preservação da cultura ocidental pela Igreja na Idade Média
Postagem realizada em: 24/08/2020 às 22:46:42 - Última atualização em: 24/08/2020 às 22:53:18
Autor: Fabíola Mota
Muitos ainda insistem na ideia de que a Igreja Católica detinha todo o conhecimento para si, de modo elitista e à serviço de ações tortuosas. Contudo, já é uma unanimidade entre os historiadores intelectualmente honestos, muitos deles inclusive ateus, que àquela instituição teve um papel central para a preservação da cultura ocidental após as invasões bárbaras (400 d.C - 1050 d.C.) e, enquanto intelectuais, aprenderam e ensinaram os conhecimentos dos antigos para posterior ensino nas escolas que eram fundadas e mantidas pela mesma.
O início do período medieval coincide com o surgimento dos primeiros mosteiros, onde abrigando monges de diversas ordens religiosas, estes seguiam, majoritariamente, a tradição da ordem beneditina, permanecendo reclusos e regidos pelo preceito “oração e trabalho” (ora et labora). A prática da oração monástica se dava principalmente pela leitura da Sagrada Escritura e de outros textos religiosos. Contudo, quando se trata de trabalhos manuais, o mais significativo era “a cópia de livros para enriquecimento das suas bibliotecas e, em maior extensão, para o uso da comunidade de leitores e estudiosos de todo o mundo” (McMURTRIE, 1965, p.96).
Entre todas as atividades corriqueiras do claustro, havia àquelas exercidas pelos monges copistas onde eram realizadas cópias não somente de textos religiosos. Os profanos eram igualmente privilegiados, o que comprova a existência entre nós, em pleno século XXI, de textos clássicos como os de Sêneca, Horácio, Virgílio, e entre outros (WOOD, 2019). Assim, podemos concluir que “(...) a Igreja valorizou, preservou, estudou e ensinou os trabalhos dos antigos, os quais teriam desaparecido não fosse isso” (AQUINO, 2017, p.116-117).
Com o tempo que os monges tinham disponível, fizeram mais do que preservar a literatura, eles estudaram as músicas dos poetas, traduziram e aprenderam sobre os escritos dos historiadores e filósofos, colaborando, dessa maneira, “na fundação da ciência e na formação dos cientistas modernos, de Galilei em diante” (AGNOLI; BARTELLONI, 2018, p. 11), com inclusive para o nascimento das Universidades, que como bem se sabe, são frutos da Idade Média. Ademais vale mencionar que as primeiras e mais renomadas instituições de ensino superior com as de Bolonha, Oxford e Sorbonne foram fundadas pela Igreja Católica. Com isso, conclui-se que a falácia de que a instituição queria um povo aprofundado na ignorância e longe do conhecimento cai por terra.
Percebe-se, portanto, que muitos nutrem uma visão deturpada da Igreja Católica, de suas atribuições quanto a guarda, preservação e divulgação do conhecimento. Coube a mesma a função de reproduzir, zelar e disseminar as informações anteriores e concomitantes à ela. Suas bibliotecas, suas traduções e o empenho dos clérigos em absorver tais conhecimentos, a fim de serem ensinados dentro e fora dos muros do claustro, nos leva a afirmar que graças a esses homens religiosos, a herança do mundo antigo foi em parte preservada chegando a nós nos tempos atuais.
Referências biliográficas:
AGNOLI, Francesco; BARTELLONI, Andrea. Cientistas de Batina: de Copérnico, pai do heliocentrismo, a Lemaitre, pai do Big Bag. São Paulo: Ecclesiae, 2018.
AQUINO, Felipe. Uma história que não é contada. 12. ed. Lorena: Cléofas, 2017.
McMURTRIE, D.C. O livro: impressão e fabrico. 2. ed. Lisboa: Fundação Calouste Gullbenkian, 1965.
WOOD, Jr. Thomas, E. Como a Igreja Católica construiu a civilização Ocidental. 10. ed. São Paulo: Quadrante, 2019.