a informação está em toda parte


Notas esparsas sobre Recursos, Bibliotecários e a Construção do Conhecimento na Sociedade

De onde e pra que viemos

No começo eram os bibliotecários grandes caçadores de livros, profissionais astutos e tenazes da época Renascentista. Também eram pessoas de conhecimentos enciclopédicos, notáveis humanistas como Calímaco e Hipácia, da lendária Alexandria.

O tempo passou, as sociedades se transformaram, a nossa atuação modificou-se. Notadamente com as Novas Tecnologias, a Biblioteconomia viu a necessidade de revisitar-se e reinventar-se para sua melhor inserção na famigerada Sociedade da Informação (ou do Conhecimento, ou da Aprendizagem – depende do teórico estudado).

Ortega y Gasset previu que uma das futuras do bibliotecário seria a de atuar como um filtro para a “torrente de informações” que se despejaria sobre o homem moderno. Ele talvez tenha colocado o filtro no “local errado” – na medida em que essa tarefa seria “regular a produção do livro a fim de evitar que se publiquem os desnecessários”. Tal atividade seria uma censura, afinal. E nas nossas atuais condições de proliferação de informação via Internet, praticamente impossível.

No entanto, creio que ele não estivesse totalmente errado. As novas TICs trouxeram em si algo que já começou com as possibilidades propiciadas pela prensa de Gutenberg: a explosão informacional. Se antes, tal qual um Dom Quixote, a tarefa do bibliotecário era a de cavalgar por longos trajetos à procura de um livro ou manuscrito que fosse útil ao seu usuário, hoje a Internet tornou o cavaleiro um ser sedentário. Na verdade, a dificuldade atual não é mais a de achar a informação em si; o difícil é realmente conseguir apropriar-se dela.

Nossa tarefa antes prioritariamente voltada à disponibilizar o acesso aos documentos, valendo-se de classificações, tesauros e instrumentos diversos de ordenação do conhecimento, vê-se hoje com a necessidade de ser re-significada: todos têm o acesso, e é cada vez menos necessária o uso de uma biblioteca para saciar as dúvidas da sociedade – mesmo sendo a informação na Internet hoje uma fonte menos confiável que a encontrada nos livros (que por isso mesmo estão nesse processo de digitalização que o Google começou em massa agora) o quadro atual evidencia uma maior utilização da Web para construção do conhecimento na sociedade atual.

O humano é o único ser a passar seus conhecimentos adiante por uma via material. Antes pela pintura em cavernas, pela escrita cuneiforme em placas, pelo papiro e pelo pergaminho, foi com Gutenberg e com as necessidades da sociedade onde ele se inseria que o livro tornou possível a proliferação de idéias que possibilitaram o desvinculamento da ciência e da religião, agindo assim na construção de um saber autônomo, de caráter científico - que sabemos hoje, também não é tão neutro como se pensa, mas que já não deixa de ter em si um certo avanço: se antes as explicações em relação aos nossos estudos tinham por base a fé em algo além-mundo, o processo para solucionar nossas questões toma hoje bases mais estruturadas para tal.

É imprescindível que o bibliotecário possa reconhecer esse aspecto: os recursos pelos quais a informação é disponibilizada puderam transformar anseios da Sociedade em realidade. Como diria Gasset, "a sociedade democrática é filha do livro, é o triunfo do livro escrito pelo homem escritor revelado por Deus e sobre o livro das leis ditadas pela autocracia". A possibilidade da divulgação de idéias diferentes deu ao humano o potencial de se libertar de suas antigas crenças; as informações contidas nesses códices revolucionaram muitas mentes. Godard já alertava, metaforicamente, que uma revolução primeiro se constrói com bibliotecas.

Cabe ressaltar que não se trata agora de sermos agora bibliófilos desmedidos e apaixonados, bradando ao mundo que ele se esqueceu do valor do livro, e, consequentemente, do nosso.

O que devemos fazer é melhor saber de nossas origens para saber em que contexto surgimos, para não mais basearmos nosso trabalho em necessidades já ultrapassadas da sociedade. O acesso ainda é um fator de estudo para nossa profissão, óbvio. Toda nossa história de ordenação do conhecimento vê-se hoje claramente utilizável para conseguir o herculeano trabalho de tornar a Web um ambiente melhor acessível e também ordenado. Novas respostas como a Web Semântica e a Arquitetura da Informação devem fazer parte de nosso aprendizado, pois.

Como "amante" da área cultural, meu objeto de reflexão é o humano, "produtor e consumidor" direto da cultura. Do que adiantaria ao bibliotecário saber organizar um grande acervo, por melhor que fosse, a um público ávido por conhecimento, se ele não trabalhasse diretamente com seus usuários? A tarefa do bibliotecário, em qualquer lugar que seja, não acaba no balcão: devemos ter preocupação sim é com a mediação, e com a virtual apropriação do conhecimento por esse usuário mitigado de informações que ele sabe que "nunca vai usar", como os livros de Raul Seixas. Psicologia, epistemologia...áreas não tão bem contempladas pelo currículo atual do curso são essenciais para um trabalho bem fundamentado nesse setor.

O saber sobre os recursos não deve ser descartado. Essa é uma de nossas missões: saber algo sobre a organização do conhecimento nos diversos suportes informacionais existentes. Definir com sapiência quando se é necessário o uso de uma enciclopédia, ou uma base de dados, saber demonstrar ao usuário formas para melhor obtenção do insumo informacional do qual ele necessita. Tarefa primerva e essencial do bibliotecário é a de fornecer o Fio de Ariadne aos usuários do labirinto da Sociedade da Informação atual.

Não desejo concluir nada. Quis falar de muitas coisas, devo ter sido até "promíscuo" em relação aos assuntos, ou cometido uma "barbaridade" para um universitário, novamente. Seria maçante e repetitivo um parágrafo final onde demonstraria que as novas TICs devem ser melhor inseridas nos conhecimentos de um bom bibliotecário, ou algo do tipo. Não desejo também dar números sobre a proliferação das informações na Web atual. Ás vezes são os devaneios que nos levam aos lugares que deveríamos realmente estar. E eu só espero que esse texto possa significar algo aberto, que reverbere algo em alguém. Afinal, pra isso também existem os livros e os artigos: para começar dúvidas.


© 2017 - 2026 by NeoCyber.